
“O violino na Música Popular Brasileira”
Entrevista com: Nicolas Krassik
Nascido na França, com 8 anos morando no Brasil e quatro cds gravados, Nicolas Krassik vem consolidando um trabalho musical significativo dentro da Música Popular Brasileira através do seu violino, seu talento e sua paixão pelo Brasil.
Nicolas, conte-nos um pouco sobre sua formação musical e sobre o que cada fase do seu percurso musical te trouxe de ensinamento?
Primeiro o fato de começar na música erudita, é uma coisa que vem da minha mãe que tocava piano e foi formada em música clássica. Quando fiz 5 anos, ela me perguntou que instrumento queria tocar, e eu escolhi o violino, não sei bem porque, mas entrar no conservatório foi um caminho natural. A música erudita me trouxe a técnica, certa sensibilidade e busca de expressividade, de um som, uma afinação, a interpretação, a atenção às dinâmicas, uma preocupação com a forma, as partes e seus contrastes e uma disciplina. Durante os 3 últimos anos de conservatório eu comecei a me interessar por outras músicas, rock, jazz, etc. Eu tirava os solos de guitarra para tocar no violino, e comecei a brincar de improvisar sozinho, de ouvido seguindo gravações de bases harmônicas.Comecei a conhecer violinistas que tocavam outro tipo de música e que foram referencias importantes como: Didier Lockwood ,Jean-Luc Ponty, Stephane Grappelli e Dominique Pifarely, até que encontrei uma escola de jazz para estudar o improviso de uma maneira mas acadêmica. Foi um ano de muita busca musical e pessoal, maravilhoso! Trabalhei com jazz uns 10 anos, toquei no grupo que o violinista Didier Lockwood montou que eram 11 violinos e uma rítmica de jazz, baixo, piano e bateria. Toquei também num quarteto de cordas com Michell Petrucciani ,pianista. O jazz então me deu liberdade, possibilidade de achar idéias diferentes, e a improvisação. Com o Jazz aprendi outro vocabulário principalmente como utilizar o arco para conseguir reproduzir um swing particular especifico de jazz baseado nos instrumentos de sopro. O fato de saber improvisar me levou a tocar vários tipos de musica: africana, turca e em fim... brasileira, que é esta fase que eu estou vivendo agora , onde eu consegui juntar um pouco de tudo isso.
Há certamente uma busca estética neste percurso. O que esteve buscando?
Eu acho que no inicio eu não sabia, mas, por exemplo, uma coisa que me incomodava no jazz, é que tem uma melodia muito pequena e horas e horas de improviso. Acho que eu buscava uma forma de tocar que se valoriza tanto a melodia quanto o improviso. A junção das duas coisas eu descobri aqui, no choro. Tal vez uma das coisas que eu estava procurando mesmo era o ritmo, e esse, eu encontrei na música brasileira. Eu sou apaixonado por percussão, estudo, toco pra mim vários instrumentos de percussão e estudo o swing da música brasileira seja forró, samba, choro, sendo o forró o gênero com o qual eu mais me identifico e que tem a ver com o prazer que descobri em dançar, que influenciou até no meu jeito de tocar violino. Eu acho que eu toco melhor violino porque eu aprendi a dançar; eu me soltei, você esquece a dificuldade, seu corpo relaxa e tudo flui melhor.
Como se deu a passagem da música erudita para a popular? (pergunta de um aluno de violino).
A coisa mais importante que aconteceu na minha vida e que despertou essa vontade de tocar musica popular foi de ver na televisão o grande violinista de jazz Didier Lockwood vestido de calça de couro, cabelo cumprido, fazendo altos improvisos junto com baixo e bateria tocando uma musica muito animada com violino elétrico, que parecia rock. Esse dia nunca vai esquecer, eu não acreditei que isso fosse possível de fazer com o violino; o choque foi radical. A partir daí, mudou tudo.
Qual foi o músico brasileiro que o inspirou a querer conhecer a MPB? (pergunta de um aluno de violino)
Os principais músicos que me deram vontade de tocar música brasileira foram João Bosco na MPB cantada, e Egberto Gismonti na MPB instrumental.
Poderia pontuar o que musicalmente quis experimentar em cada um de seus CDs?
O primeiro cd “Na lapa” foi um tipo de homenagem que eu quis fazer ao bairro, e aos músicos que eu encontrei lá durante os 2 primeiros anos de Brasil. Tem muitos convidados especiais e já começa com a mistura de gêneros musicais. O Cáçua foi um disco com grupo fixo, arranjos um pouco diferentes continuando com gêneros como o choro, samba e forró e composições minhas. O “Cordestinos” foi a continuação de uma idéia que já tinha começado no Caçuá com a descoberta da rabeca de Luis Paixão, é inspirado também pelo trabalho do Carlos Malta e seu “Pife muderno”, eu quis juntar no mesmo grupo o violino e a rabeca e sua junção com o contrabaixo e a percussão; é um cd focado na musica nordestina. Foi também um disco produzido totalmente por mim. O quarto que vai sair em breve, o “Odilê- Odilá” vai ser uma homenagem a João Bosco que foi o artista que me despertou a vontade de tocar música brasileira e é uma figura muito importante no meu caminho musical por isso este disco é muito especial para mim.
Como vê o violino na música popular brasileira atual? Conhece outros referenciais do violino na história da MPB?
O violino é pouco presente na MPB, mas tem algumas referencias sim. Nos anos 50, teve o Fafá Lemos, ele tocava entre outros com Garoto e Chiquinho do acordeão e o trio Surdina. Hoje em dia tem Antonio Nóbrega tocando violino rabeca; um caso a parte; cantor, dançarino, capoeirista, grande referencia. Mas recentemente tem o Ricardo Hertz que foi morar na França na mesma época que eu vim pra cá. Ele foi estudar na escola de Didier Lockwood, onde eu dava aula e agora é ele o professor dessa escola, ensinado os ritmos populares brasileiros. Eu o acho imbatível na música nordestina. O verdadeiro violino brasileiro é a rabeca, e aí tem vários exemplos: o Mestre Salustiano, Siba, Nelson da Rabeca, Luis Paixão, etc...
Você também se interessa pela pedagogia do violino popular. Fale-nos sobre isto.
Eu fui professor de violino desde os 20 anos numa pequena escola do meu bairro em Paris durante uns 8 anos, e no meu último ano na França eu entrei como professor de violino jazz, na recém criada escola do Didier Lockwood. Hoje em dia eu tenho em mente criar uma escola de violino brasileiro que não tenha as mesmas lacunas dos conservatórios. O aluno tem que pegar o violino e brincar, desenvolver a curiosidade, o lúdico com o instrumento e com a música em geral, escutar muita coisa e formar opinião e gosto. Aprender a seguir uma harmonia e improvisar, a reproduzir a música que esta ouvindo, aprender o suingue dos ritmos populares.Eu falo que o violinista esta acostumado a ser acompanhado, então acho que é importante saber acompanhar ,saber fazer acordes e também ter noção de harmonia.Tem que saber fazer umas rítmicas que nem faria um acordeão ou rabeca.Claro que também estudar a técnica e um repertório e sua interpretação.
Conte-nos sobre o projeto que realizou com crianças da Lapa.
Essa mini escola que eu tinha montado foi com crianças carentes da Lapa. Fizemos o projeto durante um ano, aos sábados no bar “Semente”. A minha idéia era mostrar o violino começando a partir de ritmos brasileiros, reproduzindo as levadas de formas simples no inicio, tudo isso fazendo passo de forró. Tinham aulas de dança e de percussão e ainda tinha um momento de cidadania que eram umas conversas sobre assuntos variados. Eu pensava que a percussão e a dança fossem coisas mais atrativas para eles, e foi o contrario, o violino ganhou! Aí no final das aulas, “tio, posso tocar de novo” então nos compramos alguns violinos, com ajuda de algumas pessoas, mas o projeto não durou, justamente porque não tínhamos ajuda financeira e a gente teve que dar um tempo. Mas essa idéia vai voltar com certeza.
Que conselho você daria a um aluno de violino ou mesmo de outro instrumento que está começando a estudar música?
Nunca se esquecer de brincar com o instrumento. Se tiver meia hora de estudo diária, usar 5 ou 10 minutos pra brincar, improvisar qualquer coisa que seja, experimentar ,explorar o instrumento, escutar músicas diferentes para formar o seu gosto e deixar o coração falar para saber o que realmente gosta e quer tocar. E ter muita paciência... (risos)
Para terminar, aquele jogo da associação rápida:
Música Popular Brasileira.................. suingue, dança
Violino ............................................ meu instrumento por acaso
Brasil .............................................. muita alegria, energia
O que une tudo isso?
Tudo isso é por acaso, é muita força, energia, meu amor, minha paixão pela música, e principalmente pelas pessoas daqui.
Obrigada.
Entrevista feita por: Kathiuska Alvarez, professora de violino da Artemúsica

http://www.nicolaskrassik.com/
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